terça-feira, 19 de outubro de 2010

Amor ou obsessão (?)

A Menina que amou demais

PARTE 1

Joana andava já no Ciclo e ainda acreditava no Pai Natal. O irmão mais novo dizia-lhe: "Olha ali o papel de embrulho em cima do armário. Não vês que é a mãe que compra os presentes?" Mas Joana não olhava. David, o namorado que viria a ter mais tarde, também acreditava em tudo o que lhe diziam. Chegou a andar muito entusiasmado com a ideia de ir para a Madeira trabalhar numa fábrica de encurvar bananas. "Não sabe, sogrinha? Elas nascem direitas e depois é preciso dar-lhes aquela forma", explicava ele a Paula, a mãe de Joana. "Ganham-se fortunas nesse negócio das bananas."

Eram os dois assim, uns totós. Mas inteligentes. Ele, 22 anos, a tirar Engenharia do Ambiente, brilhava em todos os trabalhos que fazia, ela, 20, era excelente aluna e tinha um talento especial para a escrita. Estava no 1.º ano do Curso de Comunicação Social, em Viseu. Quando via a Manuela Moura Guedes na televisão voltava-se para Paula: "Mãezinha, um dia vais ouvir-me dizer, ali naquele ecrã, "Boa noite, eu sou a Joana Fulgêncio"."

Há quase cinco anos, Joana e David cruzaram-se por acaso na rua, sorriram e amaram-se logo. Pouco depois começaram a namorar: no dia 3 de Julho de 2005. O número 03-07-05 tornou-se mágico. Está gravado em capas de cadernos, em fotografias, em quadros, em t-shirts, em sapatilhas. Era com ele que Joana apostava no Euromilhões. Ganhou um valor de símbolo, como todos os objectos que de alguma forma se relacionaram com a sua história de amor. Estão todos no "baú", um grande cesto de verga guardado no quarto de Joana. Postais, cartas, bilhetes que escreveram um ao outro estão no baú. Cadernos com poemas, outros com transcrições completas de SMS, bilhetes de autocarro, de espectáculos, contas de restaurantes, de hotéis de umas certas férias estão no baú. Peças de lingerie que David ofereceu a Joana, ou que foram usadas numa certa noite de núpcias estão no baú. Velas, t-shirts com palavras de amor, jeans usadas, ténis rotos, tickets de portagens, pacotes de açúcar, um pão que sobrou de um certo piquenique, um guardanapo a que David limpou a boca, num jantar romântico, estão no baú.

Paixão e sofrimento

Iam guardando tudo ali, como um património, um relicário. Algo vivo e totémico que, como tal, se transformava consoante a própria realidade ia mudando. "Porque é que o baú se limita a guardar farrapos velhos e não armazena memórias?", escreveu Joana numa das cartas que não enviou a David, em Abril deste ano, quando estavam temporariamente zangados. "Sabes... o vento que em horas más consigo arrasta folhas sem rumo, também ele se encarregará de trazer o que a cada um de nós pertence."

As zangas sempre fizeram parte da relação, mas nunca duraram muito. Durante elas, a paixão era ainda maior. Tão grande como o sofrimento. E como a felicidade da reconciliação. Eram ciclos que dominavam completamente as vidas de ambos, e ficavam gravados por todo o lado. Nas cartas, nas mensagens, nos diários. "A instabilidade foi narrada em vários capítulos, um conto cujo fim permanece tão dissolvido quanto as pegadas que um dia deixámos decalcadas na areia", escreveu Joana, em Março de 2009.

E depois, ela, cujo nome se confundia com as alcunhas carinhosas que ele lhe atribuía (couve, manga, abelha, árvore): "Couve feliz. Couve feliz. Couve feliz. Couve feliiiiz! Por há muito tempo não estar assim... Quero e desejo tanto que isto tenha vindo para ficar."

São centenas de páginas de diários, de cartas, de cadernos. "Digam o que disserem, façam o que fizerem, mudes o que mudares, eu vou estar sempre aqui. Aqui para te fazer sentir o que sofri. Aqui para lutar por ti. Aqui para ficar contigo até ao fim." Toda a história está escrita, do princípio ao fim, com sangue. "Contigo aprendi a amar. É ao teu lado o meu lugar. Além de tudo o que significas, és tudo o que não suporto perder. Um dia que duvides das minhas palavras, guarda para ti esse sentimento, que só a ti pertence. Não me largues de novo." Uma história de amor total. "Tudo mudou desde a entrada dele na minha vida. Porquê? Porque o futuro é ele. Foi o passado, está no presente, está nos sonhos a realizar. Não me interessa o que possam pensar. Interessa-me apenas o meu "eu" e ele. Só nós! É a ele que quero dedicar tudo. É com ele que quero acabar. É com ele que quero dormir na praia, ver jogos de futebol, ir a concertos, fazer compras. É com ele que sempre sonhei ver o pôr-do-sol. É com ele. É com ele. É com ele." É uma história cheia de repetições, de insistências. Tudo começa e acaba com "Amo-te... Amo-te meu amor... O maior amor do mundo... Amo-te como nunca entenderás... Amo-te para sempre, como nunca ninguém julgou ser possível amar... Um dia serão inventadas as palavras para descrever um amor como este... Hoje, ainda é inexplicável."

Os trabalhos da faculdade de Joana, artigos escritos para o jornal da escola, poemas incluídos num trabalho de Português, o tema é sempre o mesmo: o David e o amor dela por ele. No fim de um trabalho do 10.º ano que começava com "encontrei o amor e entrei no caminho dos sonhos", um professor escreveu: "Poesia sentida e sofrida. Vê-se que é uma poesia torrencial, que saiu da tua alma."

Paula, a mãe de Joana, nunca achou normal aquela relação. "Não era um comportamento próprio de quem namora há quase cinco anos. Estavam sempre tão apaixonados, tão obcecados um pelo outro que parecia que tinham acabado de se conhecer." O quarto de Joana, que tem no papel de parede e na colcha da cama o mesmo padrão de listas brancas e pretas, como uma pantera que não existe, é um santuário. Há fotografias de Joana e David nas paredes, há t-shirts com a fotografia deles gravada, idêntica às que Joana imprimiu nas capas dos cadernos escolares, nos abat-jours e nas jarras de flores.

Vida planeada

"A Joana tinha a vida toda planeada. Daqui a dois anos comprar uma casa no Porto, casar com o David e ter dois filhos, chamados Mariana e Bernardo." Joana conheceu David aos 15 anos, nunca teve outro namorado nem seria capaz, diz Paula. "Eu sempre achei que se um dia eles se separassem ela ia para freira."

Apesar disso, David era ciumento. Não deixou a namorada participar nas praxes académicas, afastava-a de amigos e amigas, criticava-a por usar minissaia, e até de perder peso, porque poderia atrair outros homens. Paula apanhou várias vezes Joana a comer Nestum, a mando de David.

Este, apesar de possessivo, teve várias escapadelas, até mesmo relações com outras raparigas. Mas voltava sempre. Joana ficava de novo feliz, e Paula também. Fazia tudo para agradar à filha. Quando ela fez 16 anos, zangou-se porque apanhou um SMS de David que dizia "... agora já tens idade para dar umas quecas". Mas depois aceitou tudo. Deixava a filha, às sextas-feiras, ir dormir a casa de David. E quando ela fez 16 anos ofereceu-lhe uma noite de lua-de-mel no Hotel Ónix. "A melhor forma que encontrei para te proporcionar uma data inesquecível junto de quem tu tanto amas...", escreveu ela.

Era normal mãe e filha trocarem bilhetes e mensagens carinhosas. As de Joana estão carregadas de amor, como sempre. Ela era assim, Paula já o sabia. Por isso apoiava o namoro com David. Achava que ele era um miúdo "que não tinha maneiras", e que se vestia de forma demasiado esquisita, com as calças ao fundo do rabo, cabelo pintado e maquilhagem na cara. "Mas a maluqueira dele até dava alegria à casa. Eu via-o como a um filho." Um dia, Paula sugeriu à filha: "Conheço um sítio muito bonito para ires com o David." E indicou a barragem de Fagilde.

Quando, há uma semana, a filha desapareceu, à noite, dias depois de uma violenta discussão com David, em que ela quis terminar a relação, instintivamente foi procurá-la lá. O Peujeot 306 com que tinham saído, para jantar fora, no centro comercial Palácio do Gelo, estava despenhado num socalco junto ao rio, com o cadáver de Joana na mala, o crânio desfeito e metido num saco de plástico. David, que apareceu ferido, num bar de Fagilde, contou à Polícia uma história de ameaças, carjacking e sequestro. Mas depois confessou que foi ele que a matou com um objecto metálico. Numa das últimas páginas do diário, Joana tinha escrito: "Levarei comigo e cá dentro para sempre o homem que me mudou, as acções que me transformaram e enriqueceram, tudo o que se evaporou num estalar de dedos. Quer queiras ou não, acredites ou não, levo eternamente o teu nome... David."


PARTE 2


Como sempre, Joana Fulgêncio foi a última a entregar a frequência. Queria que o trabalho ficasse perfeito e por isso demorava mais do que os colegas. Deveria ter terminado às 18h30 mas só saiu da escola, onde frequentava o 1º ano de Comunicação Social, perto das 19h, de terça-feira, 17 de Novembro. Às 19h18, a mãe, Paula Cristina, recebeu uma mensagem do telemóvel dela: "Não vou jantar a casa. Chego mais tarde". Achou estranho. Joana começava sempre as mensagens com Mommy e usava abreviaturas em todas as palavras. Pensou ligar à filha, mas não o fez. Sabia que ela estava com o namorado, David Saldanha, como sempre, e portanto estava bem entregue. Ainda que eles tivessem tido, três dias antes, uma grande discussão, e andassem meio zangados. Mas isso era normal. Os ciclos de zangas e reconciliações faziam parte do amor obsessivo que tinham um pelo outro. Ainda assim, havia razões para crer que a discussão da noite de sexta-feira, 13, no apartamento de David, tivesse sido invulgarmente violenta. Paula veio a saber que os vizinhos tiveram de chamar a GNR.

Joana tinha ido para lá, como era costume às sextas, para passar a noite. A mãe autorizava-a a dormir em casa do namorado para evitar que voltasse sozinha às três da manhã. Mas, daquela vez, às 11 da noite regressara a casa, explicando que tinha um trabalho de jornalismo para fazer. Paula lembra-se de ela ter passado o sábado fechada no quarto, muito triste. Pensou até que seria por não a ter deixado fazer o louco corte de cabelo que ela queria.

Quando saiu para a escola, na terça-feira, ia de minissaia e decote aberto, apesar do frio que estava em Viseu. Talvez o tivesse feito para provocar os ciúmes de David, ou para lhe agradar, na noite em que iam jantar juntos, para a reconciliação. Foram vistos a fazer compras no centro comercial Fórum Viseu, no centro da cidade, pouco depois das sete. Era impossível confundi-los. Ela, 20 anos, alta, com lentes de contacto azuis, decote e minissaia. Ele, 22 anos, mais baixo do que ela, cabelo pintado de louro, calças ao fundo do rabo e maquilhagem nos olhos. Andaram às compras no Fórum. Depois, terão ido jantar ao Palácio do Gelo, outro centro comercial, enorme e muito movimentado, à saída da cidade. A partir daí, há várias versões para o que aconteceu.

O caso de Óscar

Há quatro anos, Óscar, o padrasto de Joana, com quem ela vivia desde criança e a quem chamava pai, foi assassinado em Mangualde. Óscar trabalhava como segurança em discotecas e outras casas nocturnas, e as circunstâncias da sua morte nunca foram esclarecidas. Chegou a haver suspeitos detidos, mas as provas não foram suficientes para os incriminar. Nunca se chegou a saber quem baleou Óscar e deixou o corpo à beira da estrada que sai de Mangualde, perto da Barragem de Fagilde. Correram boatos e teorias, envolvendo figuras do mundo do crime e da polícia, e tudo isso colou um anátema à família.

Quando os pais de David souberam da relação com Joana não se opuseram, apesar das diferenças sociais. Eles são um gestor e uma professora, enquanto Paula trabalha a dias, nas limpezas. Mas a sua atitude mudou quando souberam do homicídio de Óscar e das histórias a ele ligadas. Proibiram o namoro.

David obedeceu-lhes, de início. Mas voltou clandestinamente para Joana. Esta também esteve, por várias vezes, proibida pela mãe de ver o namorado. Uma delas foi quando Paula apanhou um SMS de teor sexual de David para Joana, quando ela tinha 16 anos. David aproveitou logo para dizer aos pais que Paula o tinha ameaçado de morte. Outra vez foi por David ter desmarcado umas férias que combinaram. Foi no Verão de 2007, quando faziam dois anos de namoro. Joana estava entusiasmadíssima, não falava de outra coisa, era a primeira vez que iam viajar juntos. Mas foi nesse mês de Agosto que o telefone da Apple, o iPhone, foi lançado em Coimbra. David não resistiu e comprou logo um, a pronto, com os 600 euros que tinha guardados para as férias. Mentiu a Joana, dizendo que comprara o telefone a prestações, mas não marcou a viagem. Paula confrontou-o com a sua atitude irresponsável, dizendo que já pagara a parte de Joana, e David foi contar aos pais que Paula tinha tentado extorquir-lhe dinheiro.

A mãe de Joana proibiu-a de ver David e controlava-lhe os movimentos. Vigiava-a, lia-lhe as mensagens do telemóvel. Óscar, o padrasto, também tivera sempre o hábito de a vigiar. No tempo da escola primária, a janela da casa de banho da casa onde viviam dava para o recreio da escola. Óscar costumava sentar-se na sanita, manhãs inteiras, com uns binóculos, a observar a enteada.

Talvez por isso ela não achasse estranho que David, desde sempre, a quisesse controlar. Ambos eram ciumentos, mas Joana tinha razões para isso. O namorado traiu-a várias vezes, interrompeu a relação para andar com outras raparigas. Joana nunca teve mais ninguém. O seu amor por David era exclusivo e absoluto. Tinha o quarto repleto de fotografias dele, de t-shirts com o seu nome gravado, de páginas e páginas de diários com textos sobre ele e para ele. Era um amor excessivo. Isolaram-se do resto dos amigos. Criaram uma linguagem própria, alcunhas, códigos e private jokes. Ninguém os entendia. Ele era o "Magnum", ela a "Manga", e ambos adoravam o gelado magnum de manga. Ela era a "Couve", ele o "Emo-Punker", ela a "Abelha", ele o "Blink Racer". Tocavam a mesma guitarra, vestiam as mesmas t-shirts, usavam o mesmo perfume, Hugo Boss Soul, de homem, para serem o mesmo corpo. David espalhava velas pela casa para que, quando Joana entrasse, tudo fosse sonho à sua volta. Joana abriu o relógio de parede e substituiu o fundo do mostrador pela fotografia de David, para que todo o seu tempo fosse dele.

Paula percebeu que Joana só era feliz com David, e passou a apoiar, até a encorajar, a relação. Ofereceu-lhe uma noite para dois num hotel, quando Joana fez 18 anos, recebia David em casa, tomava conta dele como se fosse filho. Nunca pensou que ele pudesse fazer mal a Joana. Por isso não telefonou, quando recebeu aquela estranha mensagem, terça-feira, às 19h18. Quando enviou uma mensagem ao David ("A Joana está contigo?"), já era tarde: até hoje, o SMS continua pendente. Quando ligou aos pais de David, já era tarde. Quando começou, no seu carro, a correr bares e discotecas, todas as povoações, todas as estradas, já era tarde. "Onde está a minha filha?", pensava. "Será que ela está a precisar de mim?" Já era tarde quando, sem saber porquê, se dirigiu à zona onde Óscar fora encontrado morto, há quatro anos. E quando, logo a seguir, virou para aquele desvio que vai dar à Barragem de Fagilde.

O falso carjacking

O que terá acontecido depois do jantar, no Palácio do Gelo? David contou depois à Polícia Judiciária de Coimbra que, à saída do centro comercial, e, quando iam a entrar no carro, foram abordados por dois homens que desconhecia mas que o chamaram pelo nome. "Vocês não sabem com quem se meteram!", terão dito os homens, antes de forçarem David a entrar no carro deles. Joana terá ido no Peugeot 306 de David, com um dos sequestradores ao volante. Depois, David terá sido agredido, forçado a beber algo que o pôs quase inconsciente, roubado e abandonado na estrada. Foi nesse estado que foi cair à porta de um bar de Fagilde. O que ele não sabia era que o bar tinha uma câmara de vídeo à entrada. Nas imagens, a polícia viu claramente David a caminhar normalmente, depois a correr e a atirar-se para o chão quando chegou à porta. Isso confirmou as suspeitas. Já desconfiavam da versão do carjacking (hoje, David está detido). Por que se daria alguém ao trabalho de roubar um carro tão velho?

"Andam à procura da minha filha?", perguntou Paula aos agentes da GNR que vinham de jipe em sentido contrário. Vinham da barragem, o local romântico que ela tinha recomendado a Joana como ideal para namorar aos domingos à tarde, com David. Os GNR mostraram-se embaraçados e não responderam. Mas logo à frente Paula viu a ambulância, depois o carro de David. Lembrou-se de um crime ocorrido há pouco tempo na região e pensou: "Talvez ela tenha sido espancada e violada. Apenas espancada e violada". Mas não.

Perante as provas, David confessou o crime. Matou a namorada desferindo-lhe golpes no crânio com um objecto metálico. A seguir, como o sangue se espalhasse por todo o carro, envolveu a cabeça de Joana num saco de plástico, meteu o corpo na bagageira e empurrou o carro pela ravina, junto à barragem.

Porquê naquele local? Terá querido simular alguma relação com o homicídio do padrasto? Haverá realmente alguma ligação? Terá David tido cúmplices? Terá sido ele a matar Joana?

Paula sempre pensou que se um dia perdesse um dos filhos, tiraria imediatamente a vida ao outro e depois a si própria. Mas agora está apenas paralisada e absorta e a única vontade que sente é a de ficar só, para poder gritar. Fá-lo quando, por momentos, não está ninguém em casa. Ou quando vai sozinha no carro. "Joana! Joana!" Fecha as janelas e, com todas as suas forças, chama pela filha.



Por Paulo Moura in Público

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